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Deputado dos EUA propõe lei de posse dos jogos digitais

O Power To The Players Act, do deputado Ritchie Torres, quer transformar a compra de jogos em posse, exigir modo offline no fim dos servidores e liberar a revenda.

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Dois jogadores com controles nas mãos diante de uma televisão exibindo uma partida de futebol, imagem divulgada pelo gabinete do deputado Ritchie Torres
Imagem divulgada pelo gabinete do deputado Ritchie Torres para ilustrar a proposta sobre jogos digitais · Foto: JESHOOTS.COM / Unsplash, divulgada pelo gabinete do deputado Ritchie Torres

O deputado americano Ritchie Torres (Partido Democrata, Nova York) anunciou em 15 de outubro de 2026 que vai apresentar o Power To The Players Act — "Lei do Poder aos Jogadores", em tradução livre —, um projeto que determina à Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) criar regras para garantir que quem compra um jogo tenha a posse do título, e não apenas uma licença revogável de uso. O anúncio foi publicado pelo gabinete do parlamentar, que representa o 15º distrito congressional de Nova York, no Bronx.

O texto se apoia em três direitos — possuir, jogar e transferir — e vem acompanhado de um exemplo escolhido a dedo: o NBA 2K25, que sai das lojas digitais em 30 de outubro e perde os servidores online em 31 de dezembro, pouco mais de dois anos depois de chegar às lojas. Se virar lei, a proposta exigiria que jogos com funções online oferecessem modo offline antes do desligamento dos servidores e preservaria o direito de revender o que foi comprado. O caminho, porém, é longo: o projeto ainda não foi protocolado formalmente, não tem número nem coautores, e depende de análise de comissões e votação no Congresso americano.

Os três direitos que o projeto quer garantir

De acordo com o comunicado oficial, o Power To The Players Act parte de uma constatação: nos últimos anos, a indústria migrou para jogos e consoles exclusivamente digitais, eliminando a opção de comprar ou usar mídia física. Segundo o gabinete de Torres, esses títulos "são frequentemente vendidos como licenças revogáveis em vez de propriedade plena, deixando os jogadores dependentes do suporte contínuo da empresa".

A resposta vem em três frentes:

O desenho legislativo é o ponto central: o projeto não escreve as regras. Ele encarrega a FTC de elaborá-las. Isso desloca a disputa do caso a caso nos tribunais para o terreno da regulamentação federal — e é justamente aí que a proposta encontra seu maior obstáculo jurídico, como se verá adiante. Como se trata de uma diretriz, detalhes como prazo de aviso prévio, sanções e a definição exata do que é "modo offline" ainda não existem em texto.

Vale lembrar o que está em vigor hoje. Ao concluir a compra em lojas como Steam, PlayStation Store, Xbox, Nintendo eShop e Epic Games Store, o jogador aceita um contrato de licença de usuário final (EULA) que descreve a aquisição como licença de uso, não como venda de propriedade. É esse contrato que sustenta a prática de remover um jogo do catálogo ou desligar seus servidores sem que exista, para o comprador, direito automático a reembolso ou a continuar jogando.

"Não é uma compra, é um aluguel disfarçado de venda"

"Quando você paga por um jogo, você deveria ser dono dele. O consumidor precisa ter o direito de possuir, o direito de jogar e o direito de transferir os jogos que compra. Um jogo que pode ser tirado de você no momento em que a empresa puxa o plugue não é uma compra. É um aluguel disfarçado de venda. Famílias no Bronx e em todo o país economizam para comprar esses jogos, e merecem algo melhor do que uma licença que pode desaparecer a qualquer momento. O Power To The Players Act garante que o consumidor seja dono do que compra e possa continuar jogando muito depois de a empresa seguir adiante."

— Deputado Ritchie Torres, no comunicado oficial de 15 de outubro de 2026 (tradução livre)

Torres representa o 15º distrito congressional de Nova York, que cobre boa parte do Bronx, e tem atuação frequente em pautas de defesa do consumidor no Congresso. Ao anunciar o projeto, ele vinculou o tema à própria história: em entrevista por telefone ao site Kotaku, reproduzida por veículos de tecnologia, o deputado descreveu a proposta como uma "restauração da norma histórica" da época dos cartuchos e discos, quando comprar um jogo significava tê-lo em casa — e citou títulos que marcaram sua formação, como Grand Theft Auto, Resident Evil e SOCOM.

Retrato oficial do deputado americano Ritchie Torres, do Partido Democrata, que representa o 15º distrito congressional de Nova York, no Bronx
Ritchie Torres, deputado democrata pelo 15º distrito de Nova York, anunciou o Power To The Players Act em 15 de outubro de 2026. (Imagem: Reprodução / Câmara dos Representantes dos Estados Unidos — domínio público)

O texto anunciado trata especificamente de videogames, mas a lógica que o sustenta — comprar deveria significar possuir — vale igualmente para filmes, músicas e livros digitais, hoje vendidos sob o mesmo modelo de licença de uso. Uma extensão da regra a esses mercados exigiria, no entanto, um texto próprio: o Power To The Players Act, se protocolado, tratará apenas de jogos.

NBA 2K25: o exemplo escolhido pelo próprio gabinete

Em vez de discutir o problema em abstrato, o comunicado de Torres cita um caso com data marcada. O NBA 2K25, lançado em setembro de 2024, será removido das lojas digitais em 30 de outubro de 2026 e terá os servidores online desligados em 31 de dezembro de 2026 — pouco mais de dois anos depois da estreia. O jogo foi vendido por US$ 69,99 na edição padrão e US$ 99,99 na All-Star Edition, o equivalente a cerca de R$ 356 e R$ 509 pela cotação de 18 de outubro de 2026 (US$ 1 = R$ 5,09).

A página oficial de suporte da 2K sobre o encerramento do jogo é explícita: quem já possui o título poderá continuar baixando e jogando os modos offline, mas, a partir de 1º de janeiro de 2027, não será mais possível disputar partidas multiplayer nem acessar qualquer modo online. MyCAREER e MyTEAM saem do ar junto. O detalhe que transforma o caso em argumento político é que a campanha de MyCAREER é single-player: a história individual do jogador existe, mas depende de conexão — e, por isso, deixa de ser acessível.

Item do NBA 2K25Situação depois do encerramento
Reinstalação do jogo para quem já comprouMantida
Modos offlineMantidos
MyCAREER (campanha single-player)Encerrado — depende de conexão
MyTEAMEncerrado
Multiplayer e demais modos onlineEncerrados em 1º de janeiro de 2027
Compra nas lojas digitaisIndisponível a partir de 30 de outubro de 2026
Arte oficial do jogo NBA 2K25, com o jogador Jayson Tatum e o logotipo do título, usado como exemplo no anúncio do Power To The Players Act
O NBA 2K25 sai das lojas digitais em 30 de outubro e perde os servidores online em 31 de dezembro — o caso citado no comunicado oficial do deputado. (Imagem: Divulgação / 2K Games)

O caso não é isolado. É o mesmo roteiro de dezenas de jogos de serviço que saíram do ar nos últimos anos, deixando bibliotecas intactas nos consoles e nos PCs dos jogadores, mas sem forma de abri-las. A diferença, agora, é que o exemplo saiu do noticiário especializado e entrou em um comunicado oficial de um congressista americano, com valores, datas e a promessa de regulação.

Licença, não propriedade: o que já foi decidido nos tribunais

O argumento jurídico por trás do projeto esbarra numa leitura consolidada nos Estados Unidos. A doutrina da primeira venda (first sale), que permite revender um livro, um disco ou um cartucho, é lida pelos tribunais americanos como não se aplicando a licenças de software digital: o que o consumidor adquire é o direito de uso, sob as condições do contrato. É essa interpretação que explica a ausência de qualquer mercado de revenda de jogos digitais nas grandes plataformas.

Não é a primeira tentativa de mexer nisso. Na Califórnia, o Protect Our Games Act (AB 1921), do deputado estadual Chris Ward, foi apresentado em fevereiro de 2026 e aprovado na Assembleia estadual por 43 votos a 16 no fim de maio. O texto exigia aviso com 60 dias de antecedência antes do fechamento de servidores e oferecia uma saída ao consumidor: reembolso, modo offline ou servidores comunitários. Em 30 de junho, porém, o projeto travou no comitê de Negócios, Profissões e Desenvolvimento Econômico do Senado estadual — quatro votos a favor, três contrários e quatro abstenções. O comitê aceitou reabrir a discussão, mas a proposta não avançou nesta sessão legislativa.

Na Europa, a pressão popular já produziu números. A iniciativa cidadã europeia "Stop Destroying Videogames", do movimento Stop Killing Games, reuniu 1.294.188 assinaturas verificadas — acima do 1 milhão exigido para obrigar a Comissão Europeia a se pronunciar sobre o tema. O movimento foi também o principal apoio da lei californiana. Segundo o relato de um voluntário da campanha ao Engadget, a intenção é levar versões do texto a outras legislaturas estaduais e avaliar seriamente o nível federal.

Quanto falta para virar lei — e onde costuma travar

O Power To The Players Act está no estágio mais inicial possível: anunciado, mas não protocolado. Não há número de projeto, coautores nem designação de comissão. Na prática, a maior parte dos projetos apresentados no Congresso americano morre antes de chegar ao plenário, e o histórico recente não é animador para quem defende regras mais duras: a tentativa estadual da Califórnia, mais modesta do que a federal, parou em um comitê.

Há ainda uma questão jurídica de fundo. Desde 2024, com o fim da chamada deferência Chevron (caso Loper Bright Enterprises v. Raimondo), a Suprema Corte americana reduziu a margem que as agências reguladoras tinham para interpretar leis por conta própria. Um projeto que transfere à FTC o poder de criar regras sobre posse de jogos digitais terá de sobreviver a esse escrutínio mais duro — e a uma provável batalha judicial se as regras saírem do papel.

Do outro lado da mesa, o lobby do setor é forte. A Entertainment Software Association (ESA), que representa as principais publicadoras, atuou contra o projeto californiano: voluntários da Stop Killing Games relataram ao site Engadget que a associação levou um lobista para barrar a proposta, inclusive com o argumento de que servidores privados de jogos como Minecraft seriam "ilegais". Até a publicação desta matéria, não havia manifestação pública registrada da ESA nem das grandes plataformas — Sony, Microsoft, Nintendo, Valve, Epic Games e Take-Two — sobre o projeto federal.

O que isso muda para quem joga no Brasil

O efeito prático para o jogador brasileiro não é imediato: uma lei americana vale para o mercado americano. Mas as lojas digitais operam globalmente e raramente mantêm regras diferentes por país, porque adaptar contratos, sistemas e fluxos de reembolso custa caro. Mudanças regulatórias nos Estados Unidos tendem a virar padrão de mercado — e o mesmo vale para a iniciativa europeia, que pode resultar em regras obrigatórias para todo o bloco.

No Brasil, não existe lei específica sobre o que acontece quando uma empresa desliga os servidores de um jogo vendido como produto. A discussão mais avançada continua vindo de fora, o que faz do projeto de Torres um termômetro do que pode chegar por aqui nos próximos anos.

E o problema não é teórico. Em agosto, uma desenvolvedora encerrou os servidores de The Midnight Walkers e converteu o jogo em PvE com conexão ponto a ponto para que ele não saísse das bibliotecas de quem havia comprado. No PlayStation, a decisão de encerrar a produção de mídia física no PS5 rendeu petição com 280 mil assinaturas e acendeu o alerta do "fim da posse" entre jogadores e desenvolvedores. Nos consoles Xbox, a conversão de disco em licença digital travou na recusa de publicadoras como Ubisoft, Square Enix, Sega e Bandai Namco. São três sintomas do mesmo conflito entre comprar e possuir.

O que observar agora é simples e mensurável: a formalização do Power To The Players Act como projeto de lei, com número e coautores. Sem esse passo, o anúncio de 15 de outubro segue sendo uma declaração de intenção. Se o texto for protocolado, a discussão deixa de ser sobre a conveniência da proposta e passa a ser sobre seu alcance — quem fica de fora, como se fiscaliza e o que acontece com as bibliotecas já compradas. Novidades do mundo dos games você acompanha na nossa editoria de Jogos.

Fontes: comunicado oficial do gabinete do deputado Ritchie Torres (ritchietorres.house.gov), página de suporte da 2K sobre o encerramento do NBA 2K25 (support.nba2k.com), reportagem do Engadget sobre o Protect Our Games Act (engadget.com), site oficial do movimento Stop Killing Games (stopkillinggames.com), Iniciativa de Cidadania Europeia "Stop Destroying Videogames" (citizens-initiative.europa.eu) e Entertainment Software Association (theesa.com).

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