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PEGI eleva para 16 classificação de jogos com loot boxes

PEGI reclassifica jogos já lançados com loot boxes pagos para 16 anos e passa a exigir o aviso de itens aleatórios nas lojas digitais de toda a Europa.

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Arte do PEGI sobre a reclassificação de jogos com itens aleatórios pagos para PEGI 16
· Foto: PEGI / Reprodução Inven Global

Bruxelas — A Pan-European Game Information (PEGI), entidade que classifica etariamente videogames em 38 países europeus, começou a reclassificar jogos já lançados que vendem itens aleatórios pagos — as chamadas loot boxes — para a faixa de 16 anos. O anúncio foi feito em 6 de outubro de 2026, e a atualização ocorre ao longo deste mês em todas as lojas digitais que adotam o selo PEGI. Títulos que antes ostentavam PEGI 3, PEGI 7 ou PEGI 12 passam a exibir PEGI 16 e o aviso Paid random items (itens aleatórios pagos). A medida vale tanto para jogos avaliados pelo sistema tradicional, o PEGI Classic, quanto para os classificados pelo Conselho Internacional de Classificação de Idades (IARC), usado em lojas como Google Play e Microsoft Store.

Na prática, a mudança atinge produções digitais que continuam ativas e recebendo conteúdo anos depois do lançamento, de shooters competitivos a jogos de esporte e títulos mobile com sistemas de gacha. A reclassificação é retroativa apenas para versões digitais: jogos vendidos em mídia física não entram, por ora, no pacote. O trabalho será feito de forma sequencial e pode levar semanas para aparecer em todas as vitrines, já que cada publicadora precisa atualizar as próprias listagens.

O que muda na prática para quem joga

O primeiro efeito visível é o número no selo. Um jogo que hoje aparece como "12" em uma loja europeia pode ser exibido como "16" sem qualquer alteração no conteúdo violento, sexual ou de linguagem. A diferença está no mecanismo de monetização: a presença de itens aleatórios comprados com dinheiro real ou moeda virtual passou a ser tratada como um risco interativo relevante, e não apenas como um descritor informativo.

Além da idade mínima, as páginas de produto passam a carregar o descritor Paid random items, que já existe no vocabulário do PEGI, mas agora fica obrigatório para esses títulos. As empresas também precisam refletir a nova classificação em materiais de marketing futuros, trailers e campanhas que citem a faixa etária. Quem não atualizar as listagens fica sujeito às regras de conformidade do sistema e à fiscalização das autoridades nacionais que administram o PEGI.

Por que o PEGI decidiu revisar jogos antigos

A decisão amplia uma reforma anunciada em março e colocada em prática em junho, quando o órgão passou a avaliar "riscos interativos" nos lançamentos novos. Até então, a regra valia apenas para jogos submetidos a partir daquele mês. Com o catálogo antigo ficando para trás, o PEGI optou por aplicar o mesmo critério a títulos live service que seguem populares e recebendo atualizações.

"Jogos online podem permanecer disponíveis e atualizados por um período muito longo. Para evitar que nossas classificações etárias se tornem inconsistentes com o tempo, decidimos fazer esta atualização."

Dirk Bosmans, diretor-geral do PEGI

O comunicado oficial destaca que a revisão busca garantir que jogos antigos, quando continuam relevantes, reflitam os padrões atuais do sistema. A mesma lógica foi adotada pela autoridade alemã USK, que implementou critérios semelhantes em 2023 após atualização da lei de proteção à juventude do país. O PEGI afirma ter trabalhado em conjunto com a USK para alinhar as regras e evitar divergências entre dois mercados que compartilham parte do mesmo público.

A entidade também argumenta que a classificação por idade não deve ser confundida com dificuldade ou qualidade. O selo indica adequação a determinada faixa, e a inclusão de riscos interativos pretende dar aos pais um retrato mais fiel da experiência: quanto o jogo pede de dinheiro, de tempo e de interação social. Para famílias que já conheciam o descritor de compras dentro do jogo, a novidade é que esse elemento agora mexe diretamente no número exibido na capa.

Marvel Rivals já aparece com 16 anos

O caso mais citado nas primeiras semanas é Marvel Rivals. O hero shooter da NetEase exibia PEGI 12 nas lojas europeias e, em 17 de outubro, passou a PEGI 16. O jogo tem passes de temporada e itens cosméticos vendidos em pacotes, além de recompensas por tempo de jogo — combinação que o novo marco classifica como risco interativo. A mudança foi notada por jogadores antes de qualquer comunicado da desenvolvedora, o que gerou dúvidas sobre o alcance da medida.

"Estamos cientes de que ocorrerá um volume significativo de mudanças de classificação em um intervalo relativamente curto. Publicadoras e desenvolvedoras com dúvidas ou preocupações sobre o processo podem receber orientação adicional pelo Helpdesk do PEGI."

Connor Hinde, gerente de políticas da Games Rating Authority (GRA), que administra o PEGI no Reino Unido

A declaração, publicada no LinkedIn e reproduzida pela imprensa especializada, confirma que a autoridade espera uma onda de ajustes simultâneos. Para o jogador, o efeito imediato é ver jogos que já estavam instalados no console ou no celular mudarem de faixa sem atualização de conteúdo. Para as empresas, o desafio é operacional: cada loja tem um fluxo próprio de revisão, e o prazo depende da velocidade de cada plataforma.

As quatro novas categorias de risco interativo

Desde junho, o PEGI avalia quatro grupos de funcionalidades que não se encaixavam bem na classificação tradicional, baseada em violência, medo, sexo, drogas e linguagem. A tabela abaixo resume como cada um influencia a idade mínima:

Categoria Exemplo Classificação
Itens aleatórios pagosLoot boxes, pacotes de cartas, gachaPEGI 16 (pode chegar a 18)
Compras de conteúdo no jogoOfertas por tempo ou quantidade limitadaPEGI 12
NFTs e blockchainItens colecionáveis tokenizadosPEGI 18
Jogar por compromissoMissões diárias e recompensas de retornoPEGI 7; PEGI 12 se punir quem falta
Comunicação sem limitesChat sem bloqueio nem denúnciaPEGI 18

A leitura combinada explica por que um jogo de futebol sem violência explícita pode subir de faixa: se vende pacotes de jogadores aleatórios, entra no critério de PEGI 16. O mesmo raciocínio vale para títulos mobile que dependem de gacha para progressão e para experiências que misturam battle pass com recompensas diárias. O PEGI ressalva que a análise é caso a caso e que a presença de ferramentas parentais pode ser considerada na avaliação global.

Selo PEGI 16 usado em jogos com itens aleatórios pagos
Selo PEGI 16, agora obrigatório para jogos digitais já lançados que vendem itens aleatórios pagos. (Foto: Divulgação / PEGI)

Especialistas veem avanço, mas cobram alcance maior

A mudança foi bem recebida por organizações que trabalham com segurança digital de crianças, mas acompanhada de ressalvas. Em março, quando o PEGI anunciou as novas categorias, a diretora-executiva da Ygam, Emily Tofield, classificou a medida como "um passo na direção certa" e defendeu que a regra fosse aplicada também aos jogos já disponíveis. A extensão anunciada em outubro atende parte desse pedido, ainda que limitada a versões digitais.

"Sem aplicar as regras aos jogos atuais, a política fará pouco para proteger as crianças que já estão jogando."

Emily Tofield, diretora-executiva da Ygam, em entrevista à BBC

Pesquisadores também apontam que o reconhecimento das loot boxes como fator de risco é relevante, mas insuficiente sem fiscalização. "Reconhecer as loot boxes como fator de risco nas classificações etárias é um passo importante para refletir a realidade do design moderno de jogos", afirmou à BBC a doutora Ruijie Wang, da Universidade de Bournemouth, que liderou estudo de 2025 sobre riscos de mecânicas de jogos de azar entre jovens. A jornalista freelancer Vic Hood lembrou que o efeito prático depende de os pais entenderem por que as regras mudaram.

No Reino Unido, as loot boxes seguem sem legislação específica. O governo decidiu em 2022 não alterar a Lei do Jogo de 2005, alegando falta de evidência de nexo causal com danos. Desde 2023, um conjunto de princípios do setor, publicado pela Ukie, recomenda restringir a compra por menores de 18 anos sem consentimento dos responsáveis. A classificação etária, nesse contexto, funciona mais como sinal de alerta do que como proibição.

O que isso significa para o jogador brasileiro

O PEGI não tem poder sobre o Brasil. Por aqui, a classificação indicativa é feita pelo Ministério da Justiça, com o selo ClassInd, e as lojas digitais costumam exibir tanto o selo brasileiro quanto o europeu, dependendo da região da conta. Ainda assim, a decisão europeia interessa ao público brasileiro por dois motivos: pressiona publicadoras a revisar a comunicação de jogos globalizados e cria um precedente para debates sobre loot boxes no país.

Se você joga em uma conta europeia ou acompanha lojas como a PlayStation Store europeia, é provável encontrar o novo selo em títulos que já estavam na biblioteca. Vale conferir a ficha do jogo antes de comprar créditos para caixas aleatórias e, no caso de crianças e adolescentes, usar as ferramentas de controle parental do console ou do celular para limitar gastos e tempo de jogo. No Brasil, o debate sobre regulação de loot boxes segue em discussões no Legislativo, sem regra nacional específica aprovada.

Para acompanhar como a classificação etária tem mudado o mercado, vale comparar com outros casos recentes, como a classificação 18+ de GTA 6 e as novas regras de conduta de Marvel Rivals. Também é útil revisar o arquivo de jogos do portal para entender como os selos aparecem nas fichas que publicamos.

Cronograma e próximos passos

O PEGI não divulgou uma lista fechada de títulos afetados nem uma data única para a conclusão. O texto oficial afirma que as atualizações serão feitas em todas as lojas que usam o sistema e "levarão algum tempo para ser concluídas". A orientação às publicadoras é manter as listagens e os materiais de marketing atualizados, com suporte do Helpdesk em caso de dúvida.

A expectativa é que novas ondas de reclassificação apareçam nas próximas semanas, à medida que Google Play, Microsoft Store, PlayStation Store, Nintendo eShop e lojas de PC processem os pedidos. O PEGI também indicou que seguirá monitorando a implementação dos critérios ao longo do próximo ano, o que pode resultar em novos ajustes. Para o público, o recado é simples: o número na capa pode mudar sem que o jogo mude — e, agora, esse número diz mais sobre como o título cobra do jogador.

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